Inclisirana reduz o LDL em cerca de 50% nos estudos e possui fase inicial seguida de manutenção semestral. A aplicação é feita por profissional de saúde, e atrasos exigem avaliação do prescritor.
O que é a inclisirana e como ela reduz o colesterol LDL?
A inclisirana é um pequeno RNA de interferência, chamado siRNA, que diminui a produção da proteína PCSK9 no fígado. Com menos PCSK9, mais receptores de LDL são reciclados e permanecem disponíveis na superfície das células hepáticas, aumentando a retirada do colesterol LDL da circulação1. A inclisirana atua na mesma via biológica de evolocumabe e alirocumabe, mas não é um anticorpo monoclonal e possui um mecanismo diferente123. Sua ação ocorre sobre o RNA mensageiro da PCSK9: não há edição do DNA nem alteração permanente dos genes do paciente12.
Qual é o esquema da injeção semestral e o que fazer em caso de atraso?
A inclisirana possui uma fase inicial seguida de manutenção semestral, conforme a bula vigente12. A administração é feita por profissional de saúde, que deve observar as condições e os locais de aplicação previstos na bula1. Atrasos precisam ser avaliados pelo prescritor, sem que o paciente recalcule o calendário ou tente aplicar o medicamento por conta própria.
Para quem a inclisirana pode ser indicada?
A inclisirana não é indicada automaticamente para todas as pessoas com colesterol elevado. No Brasil, ela é aprovada para adultos com hipercolesterolemia primária — familiar heterozigótica ou não familiar — ou dislipidemia mista, sempre como complemento à dieta1. Pode ser associada à estatina, isoladamente ou com outros hipolipemiantes, quando a dose máxima tolerada da estatina não leva o LDL à meta. Também pode ser utilizada isoladamente ou com outros tratamentos diante de intolerância confirmada às estatinas ou contraindicação ao seu uso1. Diretrizes contemporâneas mantêm as estatinas como base do tratamento farmacológico e recomendam considerar terapias adicionais quando a meta individual de LDL não é atingida4. O consenso norte-americano de 2022 considera a inclisirana uma opção em situações selecionadas, incluindo dificuldades de adesão ou de aplicação dos anticorpos monoclonais contra PCSK92. A decisão depende do risco cardiovascular, do LDL atual, da meta individual, dos tratamentos anteriores, da tolerabilidade e do acesso.
Quanto a inclisirana reduz o LDL e ela substitui a estatina?
Nos principais ensaios clínicos, a inclisirana reduziu o LDL em aproximadamente 50%, mas esse percentual é uma média e não uma garantia individual. Na análise conjunta dos estudos ORION-9, ORION-10 e ORION-11, com 3.660 participantes, a redução corrigida pelo placebo foi de 50,7% no dia 510, enquanto a redução média ajustada entre os dias 90 e 540 foi de 50,5%5. A bula brasileira descreve redução sustentada próxima de 50%, enquanto as diretrizes reforçam que a intensidade do tratamento deve ser definida pelo risco cardiovascular e pela meta individual de LDL41. A maioria dos participantes continuava recebendo a dose máxima tolerada de estatina, com ou sem ezetimiba; por isso, o efeito estudado foi predominantemente adicional ao tratamento de base, e não uma substituição rotineira da estatina15. A resposta varia conforme o LDL inicial, os medicamentos associados e as características clínicas. O controle do LDL e o tratamento indicado devem ser mantidos durante todo o ano, de acordo com o risco individual, sem ênfase sazonal.
A inclisirana já demonstrou prevenir infarto ou AVC?
A inclisirana reduz o LDL de forma bem demonstrada, mas, na consulta documental realizada em 27 de junho de 2024, ainda não havia resultado definitivo publicado de um grande ensaio desenhado especificamente para comprovar redução de infarto, acidente vascular cerebral ou morte cardiovascular42678. Uma análise combinada dos estudos de fase 3 encontrou possível sinal favorável para eventos cardiovasculares, porém esses eventos eram exploratórios, não constituíam o desfecho primário e não foram avaliados com o rigor de um ensaio cardiovascular dedicado; isoladamente, essa análise não comprova prevenção de infarto ou AVC6. Naquela data, o registro oficial listava o ORION-4 como estudo em andamento e sem resultados publicados no registro7. O VICTORION-2 PREVENT também constava como estudo em andamento e sem resultados publicados no registro8. Como o status desses estudos pode mudar, os registros oficiais precisam ser novamente consultados na data de publicação ou atualização do artigo.
Quais são os efeitos colaterais e os principais cuidados?
As reações no local da aplicação são o efeito adverso mais característico da inclisirana. Na bula brasileira, elas ocorreram em 8,2% dos pacientes tratados e em 1,8% dos participantes que receberam placebo, incluindo dor, vermelhidão, reação local e erupção cutânea; em geral, foram leves ou moderadas, transitórias e sem sequelas, e somente 0,2% interromperam o tratamento por esse motivo1. A incidência geral de eventos adversos foi semelhante à do placebo, e uma meta-análise de quatro estudos, com 2.203 participantes no grupo inclisirana e 1.949 no placebo, não demonstrou aumento estatisticamente significativo de eventos adversos totais ou mortalidade por todas as causas19. Esse resultado não exclui eventos raros nem comprova equivalência absoluta de segurança. Após a comercialização, foram relatadas urticária, angioedema e anafilaxia, ainda sem frequência calculável; falta de ar, inchaço da face ou garganta ou reação alérgica intensa exigem atendimento de urgência1. Não há ajuste de dose previsto por idade avançada nem por comprometimento renal leve, moderado ou grave, embora a experiência na doença renal grave seja limitada. Pessoas em hemodiálise precisam ter o momento da aplicação coordenado individualmente entre o prescritor e a equipe de nefrologia, conforme a bula vigente1. Não há dados suficientes em comprometimento hepático grave. Interações clinicamente relevantes pelo sistema CYP450 não são esperadas, inclusive com atorvastatina ou rosuvastatina, mas os dados clínicos de interação são limitados1. A bula é destinada a adultos, e gravidez ou amamentação exigem avaliação individual devido à escassez de dados1.
Quais dúvidas práticas devem ser esclarecidas antes do tratamento?
A inclisirana deve ser considerada somente após uma avaliação médica individual do risco cardiovascular, dos exames de colesterol, da meta de LDL, das doenças associadas, dos tratamentos anteriores e do acesso. O registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, autoriza a comercialização após avaliação de qualidade, segurança e eficácia, mas não significa automaticamente incorporação ou fornecimento nacional pelo Sistema Único de Saúde, o SUS, que dependem de avaliação e decisão da Conitec110. O PCDT de dislipidemia disponível no Ministério da Saúde é anterior à atual disponibilização brasileira da inclisirana; isoladamente, esse documento não estabelece incorporação nacional do medicamento ao SUS1110. Não interrompa estatina, ezetimiba ou outro medicamento por conta própria. Estrangeiros, expatriados e tripulantes que estejam no litoral de São Paulo ou passem pelo Porto de Santos devem, se possível, levar exames recentes, lista de medicamentos, datas das aplicações e informações sobre alergias para assegurar a continuidade do cuidado. Referências vinculadas às chamadas numéricas:4 Mach F, Baigent C, Catapano AL, et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias: lipid modification to reduce cardiovascular risk. European Heart Journal. 2020;41(1):111-188. DOI: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehz455.1 Novartis Biociências S.A. SYBRAVA® (inclisirana): bula do profissional de saúde. Bulário Eletrônico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2023. URL: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/q/?nomeProduto=SYBRAVA. Acesso em 27 jun. 2024.2 Lloyd-Jones DM, Morris PB, Ballantyne CM, et al. 2022 ACC Expert Consensus Decision Pathway on the Role of Nonstatin Therapies for LDL-Cholesterol Lowering in the Management of Atherosclerotic Cardiovascular Disease Risk. Journal of the American College of Cardiology. 2022;80(14):1366-1418. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jacc.2022.07.006.5 Wright RS, Ray KK, Raal FJ, et al. Pooled Patient-Level Analysis of Inclisiran Trials in Patients With Familial Hypercholesterolemia or Atherosclerosis. Journal of the American College of Cardiology. 2021;77(9):1182-1193. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jacc.2020.12.058.6 Ray KK, Raal FJ, Kallend DG, et al. Inclisiran and cardiovascular events: a patient-level analysis of phase III trials. European Heart Journal. 2023;44(2):129-138. DOI: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehac594.9 Khan SA, Naz A, Qamar Masood M, Shah R. Meta-Analysis of Inclisiran for the Treatment of Hypercholesterolemia. American Journal of Cardiology. 2020;134:69-73. DOI: https://doi.org/10.1016/j.amjcard.2020.08.018.7 University of Oxford; ClinicalTrials.gov. A Randomized Trial Assessing the Effects of Inclisiran on Clinical Outcomes Among People With Cardiovascular Disease — ORION-4. Registro NCT03705234, iniciado em 2018. URL: https://clinicaltrials.gov/study/NCT03705234. Acesso em 27 jun. 2024.8 Novartis Pharmaceuticals; ClinicalTrials.gov. Study of Inclisiran to Prevent Cardiovascular Events in Participants With Established Cardiovascular Disease — VICTORION-2 PREVENT. Registro NCT05030428, iniciado em 2021. URL: https://clinicaltrials.gov/study/NCT05030428. Acesso em 27 jun. 2024.11 Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia: prevenção de eventos cardiovasculares e pancreatite. Brasília: Ministério da Saúde, 2019. URL: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/20221101_pcdt_dislipidemia.pdf. Acesso em 27 jun. 2024.3 Fitzgerald K, White S, Borodovsky A, et al. A Highly Durable RNAi Therapeutic Inhibitor of PCSK9. New England Journal of Medicine. 2017;376(1):41-51. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa1609243.10 Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde — Conitec. Conheça a Conitec. Ministério da Saúde, 2024. URL: https://www.gov.br/conitec/pt-br/assuntos/a-comissao/conheca-a-conitec. Acesso em 27 jun. 2024. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico, prescrição ou consulta médica individual.
Fontes
- 1.SYBRAVA® (inclisirana) — Bula para profissionais de saúde — Novartis Biociências S.A.; bula aprovada pela Anvisa em 3 de março de 2026, 2026
- 2.2026 ACC/AHA/AACVPR/ABC/ACPM/ADA/AGS/APhA/ASPC/NLA/PCNA Guideline on the Management of Dyslipidemia — American Heart Association/American College of Cardiology, Circulation, 2026
- 3.Cholesterol-Lowering Medications — American Heart Association, 2026
- 4.Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 — Sociedade Brasileira de Cardiologia / Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025
- 5.Pooled Patient-Level Analysis of Inclisiran Trials in Patients With Familial Hypercholesterolemia or Atherosclerosis — Journal of the American College of Cardiology, 2021
- 6.Inclisiran and cardiovascular events: a patient-level analysis of phase III trials — European Heart Journal, 2023
- 7.A Randomized Trial Assessing the Effects of Inclisiran on Clinical Outcomes Among People With Cardiovascular Disease — ORION-4 (NCT03705234) — ClinicalTrials.gov / US National Library of Medicine, 2026
- 8.Study of Inclisiran to Prevent Cardiovascular Events in Participants With Established Cardiovascular Disease — VICTORION-2 PREVENT (NCT05030428) — ClinicalTrials.gov / US National Library of Medicine, 2026
- 9.A systematic review and meta-analysis of tolerability, cardiac safety and efficacy of inclisiran for the therapy of hyperlipidemic patients — Expert Opinion on Drug Safety, 2024
- 10.Perguntas Frequentes — qual é a diferença entre o papel da Conitec e da Anvisa? — Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, 2026
- 11.Dislipidemia — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Ministério da Saúde do Brasil, 2025


