Dr. Élder Zago — Cardiologista clínico e intervencionista
Prevenção

Cigarro e coração: do primeiro trago à recuperação

26 de agosto de 2026·6 min
Cigarro e coração: do primeiro trago à recuperação
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Mesmo poucos cigarros prejudicam vasos e coração. Entenda os riscos da fumaça, do vape e os benefícios cardiovasculares de parar.

O que é o tabagismo e por que ele ameaça o coração?

O tabagismo é uma doença crônica causada pela dependência de nicotina e um dos principais fatores de risco cardiovascular que podem ser modificados. As diretrizes recomendam interromper completamente o consumo de tabaco, inclusive para quem já apresenta doença cardiovascular123. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), fumantes têm risco estimado de duas a quatro vezes maior de doença coronariana e acidente vascular cerebral (AVC) do que não fumantes; esses números são riscos relativos populacionais, não uma previsão da probabilidade individual2. Também não existe base científica para considerar seguro fumar pouco: uma meta-análise de 141 estudos de coorte mostrou que fumar cerca de um cigarro por dia mantém uma parcela substancial do excesso de risco de doença coronariana e AVC observado com 20 cigarros por dia4. A relação não é simplesmente linear, porque uma parcela relevante do dano já aparece nas menores quantidades4.

Como a fumaça, a nicotina e o monóxido de carbono afetam o sistema cardiovascular?

A fumaça do cigarro agride simultaneamente o coração, o sangue e a parede das artérias. A nicotina ativa o sistema nervoso simpático, elevando agudamente a frequência cardíaca e a pressão arterial, contraindo os vasos e aumentando o trabalho e a necessidade de oxigênio do coração a cada episódio de consumo, mesmo que a pressão medida em outro momento esteja normal567. O monóxido de carbono produzido pela combustão passa dos pulmões para o sangue e reduz a capacidade das hemácias de transportar oxigênio justamente quando a nicotina exige mais do coração5. Substâncias oxidantes e tóxicas diminuem a disponibilidade de óxido nítrico, promovem inflamação, lesionam o endotélio e aceleram a aterosclerose8. A fumaça também aumenta a ativação das plaquetas e da coagulação e torna as placas mais vulneráveis à ruptura; o infarto geralmente ocorre quando um coágulo obstrui subitamente uma artéria coronária sobre uma placa rompida8.

Quais doenças cardiovasculares estão relacionadas ao cigarro?

O dano causado pelo cigarro é disseminado pelo sistema vascular e está relacionado a angina, infarto do miocárdio, AVC, doença arterial periférica, aneurismas e tromboses28. Em estimativas de carga de doença referentes a 2020, o INCA atribuiu ao tabagismo 161.853 mortes no Brasil, equivalentes a 443 por dia, incluindo 33.179 por doenças cardíacas e 10.041 por AVC9. Para aquele mesmo ano, foram estimados 444.953 novos casos de doenças cardíacas e 52.737 AVCs associados ao tabagismo9. Esses números derivam de modelagem epidemiológica e não representam uma contagem atual de casos ou mortes em 20269.

Por que a fumaça passiva também oferece risco?

A fumaça passiva pode alterar o endotélio, as plaquetas e a coagulação mesmo em quem nunca fumou. A American Heart Association estima que não fumantes expostos em casa ou no trabalho apresentem risco aproximadamente 25% a 30% maior de doença cardíaca5. Uma meta-análise identificável publicada em 2015 associou a exposição passiva a maior risco de doença cardiovascular e mortalidade por todas as causas10. Até exposições breves podem prejudicar temporariamente o funcionamento dos vasos e das plaquetas5. Abrir janelas, ligar ventiladores ou fumar em outro cômodo não oferece proteção suficiente; a medida efetiva é manter os ambientes internos totalmente livres de fumaça53.

O cigarro eletrônico é uma alternativa segura?

O aerossol do cigarro eletrônico não é apenas vapor de água e não deve ser considerado inofensivo. Conforme o produto, pode conter nicotina, propilenoglicol, glicerina, aromatizantes, partículas ultrafinas, compostos formados pelo aquecimento e metais provenientes da resistência do aparelho6. Um pequeno estudo randomizado cruzado encontrou piora aguda de medidas hemodinâmicas periféricas e centrais e da rigidez arterial após o uso de cigarro eletrônico7. Esses resultados se referem a efeitos de curto prazo e desfechos intermediários; não demonstram hipertensão permanente em todos os usuários nem quantificam o risco após décadas de uso7. A American Heart Association reconhece efeitos fisiológicos agudos, sobretudo nos produtos com nicotina, mas ainda faltam estudos longitudinais suficientes para estimar com precisão infarto, AVC e morte após uso exclusivo prolongado6. No Brasil, a Anvisa mantém a proibição de fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda desses dispositivos, que não devem ser tratados como estratégia comprovadamente segura de redução de danos11.

O que muda no coração depois de parar de fumar?

Parar de fumar inicia uma recuperação cardiovascular progressiva desde o último cigarro. Em minutos, a frequência cardíaca começa a diminuir; em alguns dias, o monóxido de carbono no sangue retorna a níveis semelhantes aos de não fumantes; em um a dois anos, o risco de infarto cai acentuadamente; entre três e seis anos, o excesso de risco de doença coronariana diminui aproximadamente pela metade; e, em cerca de 15 anos, aproxima-se do risco de quem não fuma12. Embora as maiores reduções tendam a ocorrer nos primeiros anos, a persistência de risco relevante com consumo de baixa intensidade reforça que reduzir não substitui cessar completamente4. O ritmo da recuperação depende da exposição acumulada: dados observacionais indicam que o risco cardiovascular diminui após a cessação, mas pode permanecer acima do observado em pessoas que nunca fumaram durante anos ou décadas, especialmente após maior carga tabágica13. Em comparação com pessoas que continuaram fumando, a cessação após infarto ou na presença de doença coronariana foi associada a reduções relativas aproximadas de 39% na morte cardiovascular, 43% nos eventos cardiovasculares maiores, 36% no infarto não fatal e 30% no AVC não fatal; esses resultados provêm principalmente de estudos observacionais, e a certeza da evidência variou entre os desfechos14. A Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda aconselhamento, apoio comportamental e, quando indicado, tratamento farmacológico; no Sistema Único de Saúde (SUS), podem ser oferecidos acompanhamento estruturado, reposição de nicotina com adesivos ou gomas e bupropiona, sempre após avaliação profissional115.

Quando procurar atendimento e como planejar a cessação?

Dor ou pressão no peito, falta de ar importante, suor frio, desmaio ou sinais súbitos de AVC exigem atendimento de emergência; no Brasil, deve-se acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) pelo número 19215. Fora de uma emergência, recomenda-se consulta individual para avaliar dependência de nicotina, carga tabágica, pressão arterial, sintomas, doenças associadas e o tratamento mais apropriado, especialmente para quem já teve infarto, AVC ou doença arterial. Recaídas podem acontecer e não significam fracasso definitivo: o plano pode ser revisto com apoio profissional. Referências:1 Précoma DB et al. Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia — 2019. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2019;113(4):787-891. DOI: https://doi.org/10.5935/abc.2019020411 Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa mantém proibição dos dispositivos eletrônicos para fumar. Anvisa, 2024. URL: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2024/anvisa-mantem-proibicao-dos-dispositivos-eletronicos-para-fumar2 Instituto Nacional de Câncer (INCA). Tabagismo e doenças cardiovasculares. INCA/Ministério da Saúde. URL: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/causas-e-prevencao-do-cancer/tabagismo/tabagismo-e-doencas-cardiovasculares9 Instituto Nacional de Câncer (INCA). Custos atribuíveis ao tabagismo. Observatório da Política Nacional de Controle do Tabaco, INCA/Ministério da Saúde, dados de 2020. URL: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/observatorio-da-politica-nacional-de-controle-do-tabaco/dados-e-numeros-do-tabagismo/custos-atribuiveis-ao-tabagismo5 American Heart Association. Health Threats from Secondhand Smoke. American Heart Association, 2024. URL: https://www.heart.org/en/healthy-living/healthy-lifestyle/quit-smoking-tobacco/health-risks-of-secondhand-smoke3 U.S. Department of Health and Human Services. The Health Consequences of Involuntary Exposure to Tobacco Smoke: A Report of the Surgeon General. Office of the Surgeon General, 2006. URL: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK44324/8 U.S. Department of Health and Human Services. How Tobacco Smoke Causes Disease: The Biology and Behavioral Basis for Smoking-Attributable Disease. Office of the Surgeon General, 2010. URL: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK53017/4 Hackshaw A, Morris JK, Boniface S, Tang JL, Milenković D. Low cigarette consumption and risk of coronary heart disease and stroke: meta-analysis of 141 cohort studies in 55 study reports. BMJ. 2018;360:j5855. DOI: https://doi.org/10.1136/bmj.j585514 Wu AD, Lindson N, Hartmann-Boyce J, et al. Smoking cessation for secondary prevention of cardiovascular disease. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2022;8:CD014936. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD014936.pub212 Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Benefits of Quitting Smoking. CDC, 2024. URL: https://www.cdc.gov/tobacco/about/benefits-of-quitting.html13 Duncan MS, Freiberg MS, Greevy RA Jr, Kundu S, Vasan RS, Tindle HA. Association of Smoking Cessation With Subsequent Risk of Cardiovascular Disease. JAMA. 2019;322(7):642-650. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2019.1029810 Lv X, Sun J, Bi Y, et al. Risk of all-cause mortality and cardiovascular disease associated with secondhand smoke exposure: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Cardiology. 2015;199:106-115. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ijcard.2015.07.0116 Wold LE, Tarran R, Crotty Alexander LE, et al. Cardiopulmonary Impact of Electronic Cigarettes and Vaping Products: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2023;148. DOI: https://doi.org/10.1161/CIR.00000000000011607 Franzen KF et al. E-cigarettes and cigarettes worsen peripheral and central hemodynamics as well as arterial stiffness: a randomized, double-blinded pilot study. Vascular Medicine. 2018;23(5):419-425. DOI: https://doi.org/10.1177/1358863X1877969415 Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo. Ministério da Saúde/Conitec, 2020. URL: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/pcdt_tabagismo.pdf; Ministério da Saúde. SAMU 192 — Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. URL: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/samu-192 Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica individual.

Fontes

  1. 1.Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019Arquivos Brasileiros de Cardiologia/Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2019
  2. 2.Incidência de doenças relacionadas ao tabagismoInstituto Nacional de Câncer/Ministério da Saúde, 2022
  3. 3.2021 ESC Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practiceEuropean Society of Cardiology/European Heart Journal, 2021
  4. 4.Association between cigarette smoking status, intensity, and cessation duration with long-term incidence of nine cardiovascular and mortality outcomes: The Cross-Cohort Collaboration (CCC)PLOS Medicine, 2025
  5. 5.How Smoking and Nicotine Damage Your BodyAmerican Heart Association, 2024
  6. 6.Cardiopulmonary Impact of Electronic Cigarettes and Vaping Products: A Scientific Statement From the American Heart AssociationAmerican Heart Association/Circulation, 2023
  7. 7.Cardiovascular health effects of vaping e-cigarettes: a systematic review and meta-analysisHeart, 2025
  8. 8.Cigarette Smoking and Atherosclerotic Cardiovascular DiseaseJournal of Atherosclerosis and Thrombosis, 2024
  9. 9.Mortalidade no BrasilInstituto Nacional de Câncer/Ministério da Saúde, 2022
  10. 10.The Associations Between Secondhand Smoke Exposure and Various Cardiovascular Diseases: A Meta-AnalysisNicotine & Tobacco Research, 2026
  11. 11.Posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre o Uso de Dispositivos Eletrônicos para Fumar – 2024Arquivos Brasileiros de Cardiologia/Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2024
  12. 12.Benefits of Quitting SmokingCenters for Disease Control and Prevention, 2024
  13. 13.Smoking Cessation and Incident Cardiovascular DiseaseJAMA Network Open, 2024
  14. 14.Smoking cessation for secondary prevention of cardiovascular diseaseCochrane Database of Systematic Reviews, 2022
  15. 15.Tratamento do tabagismoInstituto Nacional de Câncer/Ministério da Saúde, 2022
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Médico Cardiologista · CRM 163971 · RQE 95171

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