Dr. Élder Zago — Cardiologista clínico e intervencionista
Tratamento

Estatina em idosos: benefícios, riscos e quando o tratamento pode ser indicado

5 de outubro de 2026·8 min
Estatina em idosos: benefícios, riscos e quando o tratamento pode ser indicado
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Idade, por si só, não decide o uso de estatina. Entenda como benefícios, riscos, estado de saúde e preferências orientam o tratamento após os 70 anos, incluindo os limites dos dados preliminares do STAREE.

Estatinas beneficiam pessoas idosas?

Estatinas reduzem o colesterol LDL e podem diminuir o risco de infarto, AVC isquêmico e outros eventos cardiovasculares, mas o benefício em idosos depende principalmente do risco individual e não apenas da idade. Em meta-análise do Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration, cada redução de 1 mmol/L — aproximadamente 38,7 mg/dL — no LDL foi associada a uma redução proporcional de 21% nos eventos vasculares maiores, com benefício em todas as faixas etárias e resultado consistente entre pessoas que já tinham doença vascular1. Entretanto, apenas 14.483 dos 186.854 participantes, ou 8%, tinham mais de 75 anos, o que ajuda a explicar a incerteza histórica nessa população1. Na prática, a pergunta não deve ser simplesmente “a pessoa tem mais de 75 anos?”, mas “qual é seu risco cardiovascular, seu estado funcional, sua expectativa de vida e o que ela deseja alcançar com o tratamento?”. Idade cronológica isolada não justifica iniciar, negar ou suspender automaticamente uma estatina23.

O que muda entre prevenção primária e prevenção secundária?

A indicação costuma ser mais clara na prevenção secundária do que na prevenção primária. Prevenção secundária é o tratamento de quem já apresentou doença cardiovascular aterosclerótica, como infarto do miocárdio, AVC isquêmico, doença arterial periférica ou necessidade de angioplastia, stent ou cirurgia de revascularização. Nessa situação, a evidência favorável à redução do LDL é mais consistente, inclusive depois dos 75 anos2431. Após um infarto, o protocolo do Ministério da Saúde recomenda iniciar precocemente tratamento com estatina, na ausência de contraindicação e independentemente do LDL inicial; a intensidade, o medicamento e a dose devem ser definidos individualmente pelo médico conforme objetivos terapêuticos, idade, função renal e hepática, interações e tolerabilidade4. Prevenção primária, por outro lado, significa tratar antes do primeiro evento cardiovascular. A decisão deve considerar o risco absoluto formado por pressão arterial, tabagismo, diabetes, doença renal, LDL, histórico familiar, aterosclerose subclínica, fragilidade, expectativa de vida e preferências pessoais235. Para pessoas aparentemente saudáveis com 70 anos ou mais, a atualização europeia de 2025 utiliza o SCORE2-OP para estimar em dez anos o risco de infarto, AVC isquêmico ou morte cardiovascular5. Quando ainda houver dúvida, o escore de cálcio coronariano ou a identificação de aterosclerose por imagem pode refinar a avaliação; cálcio ausente ou mínimo pode apoiar a decisão de não iniciar uma estatina, desde que interpretado junto ao restante do quadro clínico35.

O que o estudo STAREE acrescentou à prevenção primária?

Os resultados preliminares divulgados do STAREE sugerem que idosos relativamente saudáveis e sem doença cardiovascular clínica podem apresentar menos eventos cardiovasculares com atorvastatina, mas não estabelecem uma recomendação universal. O estudo randomizou 9.971 adultos com pelo menos 70 anos, média de 74,7 anos e 52% de mulheres, que viviam na comunidade e não tinham doença cardiovascular clínica, diabetes ou demência. Os participantes receberam atorvastatina 40 mg ao dia ou placebo; essa dose descreve exclusivamente o protocolo de pesquisa e não constitui orientação de dose ao leitor6. Após acompanhamento mediano de 5,9 anos, morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC ou revascularização ocorreu em 6,0% do grupo atorvastatina e 8,3% do grupo placebo. A comunicação do congresso informou hazard ratio de 0,72, com intervalo de confiança de 95% de 0,62 a 0,83, equivalente a uma redução relativa de aproximadamente 28%, arredondada na divulgação para 30%. A diferença bruta observada foi de 2,3 pontos percentuais; o número de aproximadamente 44 pessoas tratadas por cerca de seis anos para evitar um evento composto é uma estimativa de NNT calculada a partir dessa diferença absoluta e aplica-se à população e ao período estudados6. A atorvastatina não produziu diferença estatisticamente conclusiva na sobrevida livre de incapacidade: o desfecho de morte, demência ou incapacidade física persistente ocorreu em 12,8% versus 13,6%6. A fonte disponível é uma comunicação do ESC Congress datada de 29 de agosto de 2025 e o registro do estudo, não um artigo integral revisado por pares; por isso, os achados devem ser considerados preliminares até a publicação completa. A diretriz brasileira de 2025 e o consenso clínico de especialistas NLA/AGS de 2025 antecederam essa comunicação, enquanto a atualização ESC/EAS de 2025 foi divulgada no mesmo ciclo do congresso; nenhuma comparação cronológica deve sugerir que esses documentos já avaliaram uma publicação integral do STAREE2356. O documento norte-americano3 é o consenso clínico de especialistas da National Lipid Association e da American Geriatrics Society, intitulado “Managing Hypercholesterolemia in Adults Older Than 75 Years Without a History of Atherosclerotic Cardiovascular Disease”, e não uma diretriz norte-americana universal de 2026. Ele considera que discutir uma estatina de intensidade moderada pode ser razoável em prevenção primária após os 75 anos quando a expectativa de vida estimada é de pelo menos 2,5 anos, após avaliação individual de benefícios, riscos e preferências; trata-se de orientação condicional de consenso3. Como o STAREE não representou adequadamente idosos frágeis, institucionalizados, com diabetes, demência, múltiplas doenças graves ou expectativa de vida limitada, ele não responde integralmente como tratar esses grupos6.

Quais são os possíveis efeitos adversos?

A maioria das pessoas tolera estatinas, mas sintomas e alterações metabólicas devem ser avaliados com seriedade e contexto clínico. Em uma meta-análise de 19 ensaios duplo-cegos, dor ou fraqueza muscular foi relatada por 27,1% dos participantes que receberam estatina e 26,6% dos que receberam placebo; no primeiro ano, o excesso atribuível ao medicamento foi de aproximadamente 11 episódios por 1.000 pessoas-ano7. Isso não significa que a dor seja imaginária: artrose, hipotireoidismo, exercício, baixa massa muscular, outras doenças e medicamentos também podem causar sintomas. Segundo a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025, sintomas relacionados à estatina costumam surgir entre 4 e 12 semanas, muitas vezes como dor, fraqueza ou cãibras bilaterais e proximais. Se forem intoleráveis, é apropriado avaliar creatinoquinase, causas alternativas e interações2. A intolerância não deve ser definida após uma única tentativa; podem ser considerados outra estatina, dose menor, frequência diferente ou associação com outro hipolipemiante2. Estatinas de baixa ou moderada intensidade elevaram proporcionalmente em 10% os novos diagnósticos de diabetes — 1,3% ao ano contra 1,2% com placebo — enquanto tratamentos de alta intensidade apresentaram aumento proporcional de 36%, embora as taxas absolutas desses grupos de estudos não devam ser comparadas diretamente8. O aumento médio de glicose foi pequeno, e 62% dos novos casos ocorreram em pessoas que já estavam próximas do limiar diagnóstico8. Revisões de ensaios randomizados não demonstraram benefício das estatinas para prevenir demência ou declínio cognitivo; esses dados também têm representatividade limitada de idosos muito frágeis ou com demência estabelecida9. Estatinas não devem ser prometidas como forma de prevenir demência ou preservar independência69.

Como dose, polifarmácia e fragilidade influenciam a escolha?

Não existe uma dose universal de atorvastatina ou de outra estatina para todas as pessoas idosas. O STAREE testou atorvastatina 40 mg como protocolo de pesquisa em idosos relativamente saudáveis em prevenção primária; fora do estudo, inclusive após um infarto, a intensidade e a dose devem ser individualizadas pelo médico, e o consenso norte-americano oferece apenas orientação condicional para prevenção primária após os 75 anos436. A escolha deve considerar a redução de LDL pretendida, função renal e hepática, massa corporal, hipotireoidismo, fragilidade, tolerabilidade e interações. Idosos usam com maior frequência vários medicamentos e podem receber tratamentos temporários durante internações, viagens ou atendimento de urgência. Por isso, antes de iniciar ou aumentar uma estatina, é essencial revisar medicamentos prescritos, produtos sem receita e suplementos23. Uma interação pode exigir dose menor, mudança para outra estatina ou monitoramento mais próximo, sem necessariamente obrigar o abandono definitivo do tratamento. A intensidade também pode ser ajustada conforme a resposta do LDL e os sintomas. A comunicação pública do STAREE apresentou 2,7% em cada grupo para uma categoria denominada “eventos adversos graves”, considerando os participantes de cada braço durante acompanhamento mediano de 5,9 anos; o valor não é uma taxa anual. Como o resumo não forneceu contagens, critérios completos de adjudicação nem esclarecimento suficiente sobre eventos gerais ou considerados relacionados ao tratamento, esse percentual não deve ser interpretado como a incidência cumulativa de todos os eventos médicos graves. O resumo também indicou maior frequência de categorias musculoesqueléticas, hepatobiliares e relacionadas ao diabetes com atorvastatina, mas não publicou taxas individuais; a classificação e os denominadores deverão ser confirmados no relatório integral revisado por pares6.

Quando iniciar, manter ou reconsiderar uma estatina?

Doença cardiovascular estabelecida, evento prévio, LDL muito alto e risco cardiovascular absoluto elevado são situações que geralmente favorecem iniciar ou manter uma estatina. Diabetes, doença renal, múltiplos fatores de risco, aterosclerose em exames de imagem, cálcio coronariano relevante, boa funcionalidade e expectativa de vida suficiente para o benefício aparecer também podem reforçar a indicação24351. Em contraste, fragilidade avançada, doença terminal, doença hepática ativa, perda funcional importante, polifarmácia problemática, interação medicamentosa, sintomas musculares relevantes ou preferência por reduzir a carga de tratamento preventivo exigem maior cautela23. O consenso NLA/AGS recomenda que iniciar, manter ou retirar o tratamento seja discutido considerando risco cardiovascular, multimorbidade, fragilidade, função, polifarmácia, expectativa de vida e prioridades pessoais, e não apenas a idade cronológica3. O documento menciona expectativa de vida inferior a um ano como uma circunstância em que a retirada do hipolipemiante pode ser considerada para reduzir carga medicamentosa e possíveis efeitos adversos, especialmente no contexto de doença limitante de vida. Isso é uma orientação condicional de consenso, não um limiar obrigatório nem autorização para interromper o tratamento por conta própria, sobretudo em prevenção secundária3.

Como tomar uma decisão segura e compartilhada?

A melhor decisão é aquela que combina evidência científica, risco cardiovascular, estado global de saúde e prioridades do paciente. Perguntas úteis incluem: “Já houve infarto, AVC, doença arterial periférica ou revascularização?”, “Qual é o risco absoluto de um primeiro evento?”, “Há fragilidade, interações ou sintomas possivelmente relacionados ao medicamento?”, “Por quanto tempo seria necessário tratar para obter benefício?” e “A redução desse risco é importante para esta pessoa diante de seus outros objetivos?”. Na avaliação clínica, também é importante verificar se uma queixa surgiu depois do início ou do aumento da dose, se há causa alternativa e se é possível ajustar o esquema em vez de simplesmente abandonar a proteção cardiovascular. Não inicie, altere a dose ou suspenda uma estatina sem avaliação individual, pois a mesma conduta pode ser adequada para uma pessoa e inadequada para outra. Referências:2 Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2025. URL: https://abccardiol.org/article/diretriz-brasileira-de-dislipidemias-e-prevencao-da-aterosclerose-2025/. Acesso em 15 set. 2025.4 Brasil. Ministério da Saúde; Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das Síndromes Coronarianas Agudas. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2023. URL: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/pcdt-sindromes-coronarianas-agudas.pdf. Acesso em 15 set. 2025.3 National Lipid Association; American Geriatrics Society. Managing Hypercholesterolemia in Adults Older Than 75 Years Without a History of Atherosclerotic Cardiovascular Disease: An Expert Clinical Consensus from the National Lipid Association and the American Geriatrics Society. Journal of Clinical Lipidology. 2025. URL: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=%22Managing+Hypercholesterolemia+in+Adults+Older+Than+75+Years%22. Acesso em 15 set. 2025.5 European Society of Cardiology; European Atherosclerosis Society. 2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the Management of Dyslipidaemias. European Heart Journal. 2025. URL: https://www.escardio.org/Clinical-Practice-Guidelines/2025-Focused-Update-of-the-2019-ESC-EAS-Guidelines-for-the-management-of-dyslipidaemias. Acesso em 15 set. 2025.6 European Society of Cardiology; STAREE investigators. STAREE — STAtins in Reducing Events in the Elderly: results presentation. ESC Congress 2025; comunicação datada de 29 ago. 2025. Registro do estudo: ClinicalTrials.gov NCT02099123. URLs: https://www.escardio.org/The-ESC/Press-Office/Press-releases e https://clinicaltrials.gov/study/NCT02099123. Acesso em 15 set. 2025. Fonte disponível como comunicação de congresso e registro, sem publicação integral revisada por pares identificada na fonte consultada.7 Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration. Effect of Statin Therapy on Muscle Symptoms: An Individual Participant Data Meta-analysis of Large-scale, Randomised, Double-blind Trials. The Lancet. 2022;400:832–845. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(22)01545-8.8 Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration. Effects of Statin Therapy on Diagnoses of New-onset Diabetes and Worsening Glycaemia in Large-scale Randomised Blinded Statin Trials: An Individual Participant Data Meta-analysis. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2024;12:306–319. DOI: https://doi.org/10.1016/S2213-8587(24)00040-8.1 Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration. Efficacy and Safety of Statin Therapy in Older People: A Meta-analysis of Individual Participant Data from 28 Randomised Controlled Trials. The Lancet. 2019;393:407–415. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)31942-1.9 McGuinness B, Craig D, Bullock R, Passmore P. Statins for the Prevention of Dementia. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2016;1:CD003160. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD003160.pub3. Aviso: este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação médica individual.

Fontes

  1. 1.Efficacy and safety of statin therapy in older people: a meta-analysis of individual participant data from 28 randomised controlled trials — The Lancet, 2019
  2. 2.Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 — Arquivos Brasileiros de Cardiologia/Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2025
  3. 3.2026 ACC/AHA/AACVPR/ABC/ACPM/ADA/AGS/APhA/ASPC/NLA/PCNA Guideline on the Management of Dyslipidemia: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines — Circulation/American Heart Association, 2026
  4. 4.Prevenção secundária – Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) — Ministério da Saúde do Brasil
  5. 5.2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias — European Society of Cardiology/European Atherosclerosis Society, 2025
  6. 6.Atorvastatin, Cardiovascular Events, and Disability-free Survival in Older Adults — New England Journal of Medicine, 2026
  7. 7.Effect of statin therapy on muscle symptoms: an individual participant data meta-analysis of large-scale, randomised, double-blind trials — The Lancet, 2022
  8. 8.Effects of statin therapy on diagnoses of new-onset diabetes and worsening glycaemia in large-scale randomised blinded statin trials: an individual participant data meta-analysis — The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2024
  9. 9.Association of lipid-lowering therapy with dementia and cognitive outcomes: a systematic review and meta-analysis — Age and Ageing/Oxford University Press, 2025
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Dr. Élder Zago
Dr. Élder Zago
Médico Cardiologista · CRM 163971 · RQE 95171

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