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Infarto em jovens não é inevitável. Entenda os fatores de risco, o histórico familiar, os exames e como proteger o coração.
O que é infarto precoce e o que os dados disponíveis realmente mostram?
“Infarto precoce” é um conceito que depende do limite de idade adotado por cada estudo ou diretriz e não corresponde automaticamente a todo infarto ocorrido antes dos 60 anos. A diretriz brasileira considera história familiar de doença aterosclerótica prematura quando o evento ocorre antes dos 55 anos nos homens ou dos 65 nas mulheres; revisões e documentos europeus empregam outros limites conforme o contexto clínico e familiar123. Os números anteriormente atribuídos a um levantamento da Rede D’Or — 4.921 pacientes avaliados entre janeiro de 2025 e março de 2026 — não foram mantidos porque não foi localizada publicação, relatório institucional ou base preliminar pública com metodologia verificável. Uma fonte pública alternativa é o SIH/SUS, base administrativa formada pelas Autorizações de Internação Hospitalar financiadas pelo SUS4. Ela permite consultas por diagnóstico, local, período e faixa etária, mas não abrange toda a assistência privada e suas internações não devem ser interpretadas automaticamente como pacientes únicos ou incidência populacional4. Comparações entre cidades ou estados exigem definição uniforme dos casos, denominadores populacionais, cobertura assistencial e ajuste para diferenças demográficas. Dados administrativos não calculam o risco individual de um morador e uma análise específica de Santos ou da Baixada Santista precisaria ser conduzida separadamente4.
Por que uma pessoa jovem pode ter um infarto?
O infarto pode ocorrer cedo quando fatores genéticos, clínicos e comportamentais aceleram processos que normalmente se acumulam ao longo de décadas. A aterosclerose é cumulativa: a exposição prolongada ao LDL e a outras partículas que contêm apolipoproteína B favorece o depósito de colesterol na parede das artérias, e níveis elevados desde cedo aumentam o risco ao longo da vida153. Na maioria dos infartos do tipo 1, um coágulo se forma sobre uma placa aterosclerótica que sofreu ruptura ou erosão. Mesmo uma pessoa jovem, com menor quantidade total de placas, pode apresentar uma placa vulnerável capaz de desencadear um evento agudo6. Nem todo infarto em jovens decorre da aterosclerose obstrutiva tradicional. Outros mecanismos incluem dissecção coronariana espontânea, espasmo, embolia ou trombose, uso de drogas estimulantes, doenças inflamatórias ou autoimunes e estados de hipercoagulabilidade. Quando há critérios de infarto sem obstrução coronariana significativa, utiliza-se inicialmente o diagnóstico de trabalho MINOCA, que exige investigação para definir o mecanismo e excluir diagnósticos alternativos6. A definição etiológica é importante porque o tratamento e a prevenção de novos eventos podem ser diferentes.
Quais fatores podem antecipar a doença cardiovascular?
Tabagismo, diabetes, colesterol elevado, hipertensão, excesso de peso e histórico familiar estão consistentemente associados ao infarto prematuro. A intensidade de cada associação varia conforme a população, a definição etária e o desenho do estudo, e resultados populacionais não representam a probabilidade individual de uma pessoa2. Em um estudo caso-controle com 4.528 adultos jovens, foram avaliados diabetes, hipertensão, tabagismo, histórico familiar de infarto prematuro, hipercolesterolemia, depressão e baixa renda familiar. Nesse estudo, o conjunto desses fatores apresentou fração atribuível populacional estimada de aproximadamente 84% entre mulheres e 85% entre homens. Essa medida depende das associações e da prevalência dos fatores na população estudada e não representa a parcela do risco explicada em cada indivíduo7. O histórico familiar aumenta o risco, mas não torna o infarto inevitável. É útil registrar quais pais, irmãos ou filhos tiveram doença cardiovascular, qual foi o evento e com que idade ocorreu1253. LDL-c persistentemente igual ou superior a 190 mg/dL representa elevação grave, pode sugerir hipercolesterolemia familiar e requer avaliação médica, investigação de causas secundárias e análise do histórico familiar1. Morar em São Paulo, por si só, não determina o risco. Estresse psicossocial é reconhecido como modificador cardiovascular, mas não prova a causa do infarto de uma pessoa ou de diferenças entre localidades3. A meta-análise encontrou OR de 1,01 por aumento de 10 µg/m³ de PM10 (IC95% 1,00–1,02), equivalente a uma associação estimada de aproximadamente 1% nas chances. O efeito foi pequeno e próximo do valor nulo e, por ser evidência observacional, não demonstra causalidade. Nem essa estimativa nem dados administrativos permitem atribuir diferenças de idade entre localidades à poluição ou ao ritmo de vida48.
Quando e como o risco deve ser avaliado?
A avaliação cardiovascular de uma pessoa jovem deve combinar história clínica, exame físico e exames selecionados, sem se apoiar apenas na idade. A análise pode incluir sintomas, medicamentos e substâncias utilizadas, histórico familiar, pressão arterial, peso, circunferência abdominal, glicemia ou hemoglobina glicada e perfil lipídico153. A diretriz brasileira recomenda estratificar o risco cardiovascular e reconhecer agravantes que podem não ser adequadamente representados por escores de curto prazo, especialmente em adultos jovens1. A fonte norte-americana publicamente disponível utilizada neste artigo é a diretriz ACC/AHA de 2019: ela recomenda avaliar fatores tradicionais dos 20 aos 39 anos e calcular o risco de dez anos em adultos selecionados dos 40 aos 75; estimativas de risco ao longo da vida ou em 30 anos podem ser consideradas em faixas etárias específicas. Nenhuma diretriz norte-americana atribuída a 2026 foi utilizada porque ela não estava publicamente disponível na data de verificação das fontes5. Escores de dez anos frequentemente produzem números baixos em jovens, mas isso não exclui risco elevado ao longo da vida diante de LDL alto, tabagismo, diabetes, hipertensão ou forte histórico familiar15. A lipoproteína(a), ou Lp(a), é determinada principalmente pela genética e não faz parte do perfil lipídico convencional. A diretriz europeia recomenda considerar sua medição pelo menos uma vez na vida adulta; a diretriz norte-americana reconhece sua utilidade em contextos como histórico familiar de doença prematura. Valores iguais ou superiores a aproximadamente 50 mg/dL ou 125 nmol/L são considerados agravantes de risco, embora as unidades não sejam diretamente intercambiáveis por uma conversão universal53. Lp(a) elevada não significa que a pessoa necessariamente terá um infarto, mas pode justificar controle mais rigoroso dos fatores modificáveis. Apolipoproteína B, testes genéticos e exames de imagem são indicados conforme o contexto, e não indiscriminadamente. O escore de cálcio coronariano não é exame de rotina para todo adulto jovem: pode ser considerado quando a decisão preventiva permanece incerta, sobretudo a partir dos 40 anos e em situações como histórico familiar de doença aterosclerótica prematura15.
Como reduzir o risco de infarto desde cedo?
A prevenção mais eficaz começa antes dos sintomas e combina hábitos sustentáveis com diagnóstico e tratamento dos fatores de risco. Os oito componentes de saúde cardiovascular da American Heart Association são alimentação, atividade física, ausência de exposição à nicotina, sono adequado, peso corporal, lipídios, glicemia e pressão arterial9. A alimentação deve priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas, castanhas e fontes adequadas de proteína. Ultraprocessados, excesso de sal, açúcares adicionados e gordura saturada devem ser reduzidos9. Para adultos, recomenda-se pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa, além de menos tempo sedentário, sempre com adaptação ao condicionamento, aos sintomas e às doenças preexistentes9. Não fumar inclui abandonar cigarros convencionais, evitar cigarros eletrônicos e outros produtos com nicotina e reduzir a exposição passiva29. A maioria dos adultos deve buscar aproximadamente sete a nove horas de sono por noite9. Durante setembro, Mês do Coração, essas medidas ganham visibilidade antes do Dia Mundial do Coração, em 29 de setembro, mas precisam ser mantidas durante todo o ano. Hipertensão, diabetes e colesterol alto podem evoluir sem sintomas, por isso medições periódicas são importantes mesmo para quem se sente saudável1593. Medicamentos para reduzir LDL, pressão ou glicemia podem ser necessários conforme o risco global, mas não devem ser iniciados por conta própria nem indicados apenas pela idade ou por um resultado isolado153.
Quando os sintomas exigem atendimento imediato?
Dor ou pressão persistente no peito, especialmente quando acompanhada de falta de ar, suor frio, palidez, náusea ou sensação de desmaio, deve ser tratada como emergência. O desconforto pode irradiar para braço, costas, mandíbula ou região do estômago10. No Brasil, inclusive para estrangeiros, expatriados e tripulantes que estejam em Santos ou na região do Porto de Santos, a orientação é acionar o SAMU pelo número 192 ou procurar imediatamente um serviço de emergência10. Pessoas jovens também podem sofrer um infarto; portanto, a idade não deve ser usada para minimizar sintomas compatíveis.
Quais dúvidas são comuns e quais são as referências utilizadas?
O risco individual depende da combinação de fatores modificáveis, genética, doenças associadas e tempo de exposição, e não apenas do local de residência ou da idade. “Uma pessoa ativa pode ter infarto?” Sim. Atividade física reduz o risco, mas não elimina fatores como hipercolesterolemia familiar, diabetes, hipertensão, tabagismo prévio ou mecanismos não ateroscleróticos. “Ter pai ou mãe com infarto significa que também terei?” Não. O histórico familiar é um agravante importante, mas prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado podem modificar substancialmente o risco1253. “Todo jovem precisa medir Lp(a) ou fazer escore de cálcio?” A medição da Lp(a) pode ser considerada pelo menos uma vez na vida adulta, enquanto o escore de cálcio deve ser reservado a situações selecionadas; a decisão deve ser individualizada153. Referências:4 Ministério da Saúde, Departamento de Informática do SUS — DATASUS. Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS): Morbidade Hospitalar do SUS e notas técnicas. Base administrativa institucional formada por Autorizações de Internação Hospitalar; não é estudo publicado nem conjunto preliminar da Rede D’Or. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. Metodologia e acesso: https://datasus.saude.gov.br/acesso-a-informacao/morbidade-hospitalar-do-sus-sih-sus/. Acesso em 8 mar. 2025.1 Faludi AA, Izar MCO, Saraiva JFK, et al. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose — 2017. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2017;109(2 Supl. 1):1–76. DOI: https://doi.org/10.5935/abc.20170121. Acesso em 8 mar. 2025.2 Egred M, Viswanathan G, Davis GK. Myocardial infarction in young adults. Postgraduate Medical Journal. 2005;81(962):741–745. DOI: https://doi.org/10.1136/pgmj.2004.027532. Acesso em 8 mar. 2025.6 Tamis-Holland JE, Jneid H, Reynolds HR, et al. Contemporary Diagnosis and Management of Patients With Myocardial Infarction in the Absence of Obstructive Coronary Artery Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2019;139(18):e891–e908. DOI: https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000000670. Acesso em 8 mar. 2025.7 Lu Y, Li SX, Liu Y, et al. Sex-Specific Risk Factors Associated With First Acute Myocardial Infarction in Young Adults. JAMA Network Open. 2022;5(5):e229953. DOI: https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2022.9953. Acesso em 8 mar. 2025.5 Arnett DK, Blumenthal RS, Albert MA, et al. 2019 ACC/AHA Guideline on the Primary Prevention of Cardiovascular Disease. Circulation. 2019;140(11):e596–e646. DOI: https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000000678. Acesso em 8 mar. 2025. Esta é a diretriz norte-americana utilizada; nenhuma diretriz atribuída a 2026 foi considerada.9 Lloyd-Jones DM, Allen NB, Anderson CAM, et al. Life’s Essential 8: Updating and Enhancing the American Heart Association’s Construct of Cardiovascular Health. Circulation. 2022;146(5):e18–e43. DOI: https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000001078. Acesso em 8 mar. 2025.3 Visseren FLJ, Mach F, Smulders YM, et al. 2021 ESC Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice. European Heart Journal. 2021;42(34):3227–3337. DOI: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehab484. Acesso em 8 mar. 2025.10 Ministério da Saúde. Infarto agudo do miocárdio; Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192. Brasília: Ministério da Saúde; 2023. URLs: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/i/infarto e https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/samu-192. Acesso em 8 mar. 2025.8 Luo C, Zhu X, Yao C, et al. Short-term exposure to particulate air pollution and risk of myocardial infarction: a systematic review and meta-analysis. Environmental Science and Pollution Research. 2015;22(19):14651–14662. URL: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=%22Short-term+exposure+to+particulate+air+pollution+and+risk+of+myocardial+infarction%22. Acesso em 8 mar. 2025. Uma consulta permite interpretar os números à luz dos sintomas, antecedentes, rotina e objetivos de cada pessoa. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica individual.
Fontes
- 1.Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 — Arquivos Brasileiros de Cardiologia / Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2025
- 2.Risk Factors for Premature Myocardial Infarction: A Systematic Review and Meta-analysis of 77 Studies — Mayo Clinic Proceedings: Innovations, Quality & Outcomes, 2021
- 3.2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the Management of Dyslipidaemias — European Society of Cardiology / European Atherosclerosis Society, 2025
- 4.Rede D’Or: média de infarto em SP é de 58 anos — Rede D’Or, 2026
- 5.Top Things to Know: Guideline on the Management of Dyslipidemia — American Heart Association / American College of Cardiology, 2026
- 6.Causes, Angiographic Characteristics, and Management of Premature Myocardial Infarction: JACC State-of-the-Art Review — Journal of the American College of Cardiology / American College of Cardiology, 2022
- 7.Sex-Specific Risk Factors Associated With First Acute Myocardial Infarction in Young Adults — JAMA Network Open / American Medical Association, 2022
- 8.Association between PM10 exposure and risk of myocardial infarction in adults: A systematic review and meta-analysis — PLOS ONE, 2024
- 9.Life’s Essential 8: Updating and Enhancing the American Heart Association’s Construct of Cardiovascular Health — Circulation / American Heart Association, 2022
- 10.Infarto — Ministério da Saúde do Brasil


