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Albumina elevada na urina pode sinalizar risco cardiorrenal. Entenda a RAC, como confirmar o exame e quando buscar avaliação.
O que é albuminúria e como ela é medida?
Albuminúria é a presença de albumina na urina em quantidade acima do esperado. Em condições normais, a barreira de filtração dos rins impede que quantidades relevantes dessa proteína do sangue cheguem à urina; quando isso ocorre, pode haver alteração glomerular, microvascular ou hemodinâmica, mas o resultado não identifica sozinho a causa123. O exame preferencial é a relação albumina-creatinina urinária, chamada RAC ou UACR. Ela reduz o efeito da concentração ou diluição da urina e permite utilizar uma amostra isolada, sem a necessidade rotineira de coleta por 24 horas1. A classificação KDIGO divide a RAC em A1, abaixo de 30 mg/g, normal a levemente aumentada; A2, de 30 a 299 mg/g, moderadamente aumentada; e A3, igual ou superior a 300 mg/g, gravemente aumentada. Os termos antigos “microalbuminúria” e “macroalbuminúria” ainda aparecem em estudos, mas as categorias A1, A2 e A3 são atualmente preferidas14.
O que a albumina na urina pode revelar sobre o coração?
A albuminúria pode funcionar como um marcador de vulnerabilidade conjunta dos rins, dos vasos sanguíneos e do coração. A relação com a insuficiência cardíaca é bidirecional: a perda de albumina pode surgir antes da doença cardíaca como sinal de lesão renal ou vascular, enquanto uma insuficiência cardíaca já estabelecida também pode aumentar a albuminúria, especialmente quando há elevação da pressão venosa e congestão renal23. Entre os mecanismos propostos estão disfunção endotelial e microcirculatória, lesão da barreira glomerular, inflamação, estresse oxidativo, ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona e retenção de sódio e água. Esses mecanismos ajudam a explicar a associação, mas não provam que a albumina urinária cause diretamente insuficiência cardíaca23. A RAC também pode estar elevada mesmo com taxa de filtração glomerular estimada, ou TFGe, preservada: a RAC mede perda de albumina, enquanto a TFGe avalia a capacidade de filtração. Na prática clínica, os dois exames são interpretados em conjunto, conforme recomendado para a avaliação do risco cardiovascular, renal e metabólico [1,3-5].
Quanto a albuminúria aumenta o risco de insuficiência cardíaca?
Quanto maior a albuminúria, maior tende a ser a ocorrência futura de insuficiência cardíaca e de outros eventos cardiovasculares, mas essa é uma associação de risco e não uma previsão individual. Uma meta-análise com 27.503.140 pessoas de 114 coortes, incluindo dados de albuminúria de aproximadamente 9,1 milhões, encontrou aumento progressivo do risco mesmo após ajustes para pressão arterial, diabetes, tabagismo, colesterol e doença cardiovascular prévia5. Entre participantes com TFGe de 90–104 mL/min/1,73 m², comparados àqueles com RAC abaixo de 10 mg/g, as razões de risco instantâneo ajustadas (hazard ratios, HR), em valores arredondados, foram 1,3 para RAC de 10–29 mg/g, 1,4 para 30–299 mg/g e 2,5 para 300 mg/g ou mais5. No estudo HOPE, maior excreção urinária de albumina associou-se de forma gradual a eventos cardiovasculares, morte e hospitalização por insuficiência cardíaca, inclusive em valores abaixo dos limiares clássicos, reforçando que o risco ocorre em um contínuo6. Entre pessoas que já têm insuficiência cardíaca, revisões descrevem a albuminúria como um achado frequente, relacionado tanto a comorbidades quanto à congestão3. No programa CHARM, a albuminúria foi comum e se associou a pior prognóstico, embora o resultado deva ser interpretado no contexto clínico de cada paciente7. No estudo GISSI-HF, a elevação da excreção urinária de albumina também apresentou valor prognóstico, mas fatores como congestão, diabetes, pressão arterial, função renal e momento da coleta influenciam a interpretação8.
Como confirmar um resultado de RAC elevado?
Um resultado elevado de RAC deve ser confirmado antes de ser interpretado como alteração persistente. A primeira urina da manhã é preferível porque apresenta menor variabilidade e melhor correlação com a excreção diária, embora uma amostra aleatória possa ser usada quando a coleta matinal não for viável1. Resultados positivos, sobretudo os próximos de 30 mg/g ou encontrados em pessoas sem fatores de risco conhecidos, geralmente devem ser repetidos em condições adequadas. Exercício recente, infecção urinária sintomática, menstruação, sangue na urina, diferenças na excreção de creatinina e variações na concentração urinária podem alterar temporariamente a RAC1. Fitas convencionais de urina podem não detectar quantidades pequenas, mas clinicamente relevantes, de albumina; um resultado positivo na fita também precisa ser confirmado por método quantitativo, preferencialmente pela RAC1. Uma RAC igual ou superior a 30 mg/g é marcador de dano renal, mas a caracterização de doença renal crônica exige persistência da alteração renal por pelo menos três meses. Portanto, um exame isolado não estabelece o diagnóstico14.
Quem deve conversar com o médico sobre esse exame?
Pessoas com hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, doença renal, doença cardiovascular ou insuficiência cardíaca têm maior utilidade clínica potencial com a avaliação da RAC. Para indivíduos com fatores de risco e ainda sem diagnóstico de doença renal crônica, o protocolo brasileiro recomenda acompanhamento anual com TFGe, RAC e exame de urina4. Avaliar apenas a creatinina pode deixar de identificar albuminúria com filtração preservada, embora a triagem universal de RAC em todas as pessoas com insuficiência cardíaca ainda não seja recomendada de maneira uniforme pelas diretrizes específicas dessa condição [1-3,6]. Valores persistentes iguais ou superiores a 30 mg/g merecem avaliação clínica, e resultados iguais ou superiores a 300 mg/g indicam albuminúria mais intensa e risco cardiorrenal mais elevado. A urgência, porém, depende também dos sintomas, da TFGe, das comorbidades e da velocidade de mudança145. A avaliação costuma incluir repetição da RAC, creatinina e TFGe, pressão arterial, controle do diabetes, presença de hematúria ou infecção, medicamentos em uso, edema, falta de ar e histórico renal e cardiovascular. Pressão arterial, glicemia, colesterol, peso, tabagismo e estilo de vida devem ser abordados em conjunto [1-3]. Falta de ar importante, edema em progressão ou outros sinais de congestão justificam avaliação sem demora.
Quais são as dúvidas mais comuns sobre albuminúria?
Um resultado isolado de albuminúria não confirma doença renal nem insuficiência cardíaca. “RAC elevada significa que terei insuficiência cardíaca?” Não; ela indica maior risco estatístico e precisa ser interpretada com sintomas, pressão arterial, diabetes, função renal e histórico clínico. “Creatinina normal exclui o problema?” Não; a RAC pode estar aumentada mesmo com TFGe preservada152. “Preciso coletar urina por 24 horas?” Em geral, não; uma amostra isolada, preferencialmente da primeira urina da manhã, costuma ser suficiente para a RAC1. “Posso esperar para repetir?” A repetição é frequentemente necessária, mas o prazo deve ser individualizado, sobretudo quando a RAC é muito elevada, existem sintomas ou há piora da função renal. Se você estiver viajando, trabalhando embarcado ou permanecendo pouco tempo em Santos, guarde o laudo completo e organize o acompanhamento com um profissional que possa comparar os resultados. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica individual. Referências:1 Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105(4S):S117–S314. DOI: https://doi.org/10.1016/j.kint.2023.10.0184 Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Renal Crônica. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. URL: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/d/doenca-renal-cronica9 American Diabetes Association Professional Practice Committee. 11. Chronic Kidney Disease and Risk Management: Standards of Care in Diabetes—2024. Diabetes Care. 2024;47(Suppl 1):S219–S230. DOI: https://doi.org/10.2337/dc24-S0115 Grams ME, Coresh J, Matsushita K, et al.; CKD Prognosis Consortium. Estimated Glomerular Filtration Rate, Albuminuria, and Adverse Outcomes: An Individual-Participant Data Meta-Analysis. JAMA. 2023;330(13):1266–1277. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2023.170022 Khan MS, Shahid I, Bennis A, et al. Albuminuria: An Underappreciated Risk Factor for Cardiovascular Disease. Journal of the American College of Cardiology. 2023;82(22):2126–2144. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jacc.2023.09.0053 Mullens W, Damman K, Testani JM, et al. Evaluation of Kidney Function Throughout the Heart Failure Trajectory—A Position Statement From the Heart Failure Association of the European Society of Cardiology. European Journal of Heart Failure. 2020;22(4):584–603. DOI: https://doi.org/10.1002/ejhf.16977 Jackson CE, Solomon SD, Gerstein HC, et al. Albuminuria in Chronic Heart Failure: Prevalence and Prognostic Importance. The Lancet. 2009;374(9689):543–550. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(09)61378-76 Gerstein HC, Mann JFE, Yi Q, et al. Albuminuria and Risk of Cardiovascular Events, Death, and Heart Failure in Diabetic and Nondiabetic Individuals. JAMA. 2001;286(4):421–426. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.286.4.4218 Masson S, Latini R, Milani V, et al. Prevalence and Prognostic Value of Elevated Urinary Albumin Excretion in Patients With Chronic Heart Failure: Data From the GISSI-Heart Failure Trial. Circulation: Heart Failure. 2010;3(1):65–72. DOI: https://doi.org/10.1161/CIRCHEARTFAILURE.109.881805
Fontes
- 1.KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease — Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) / Kidney International, 2024
- 2.Albuminuria and Heart Failure: JACC State-of-the-Art Review — Journal of the American College of Cardiology / American College of Cardiology Foundation–Elsevier, 2023
- 3.Albuminuria and heart failure — European Heart Journal / Oxford University Press, em nome da European Society of Cardiology, 2026
- 4.PCDT Resumido das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica — Ministério da Saúde do Brasil / Conitec, 2024
- 5.Estimated Glomerular Filtration Rate, Albuminuria, and Adverse Outcomes: An Individual-Participant Data Meta-Analysis — JAMA / American Medical Association, 2023
- 6.Longitudinal Trajectories of Albuminuria and Risk of Subclinical and Clinical Heart Failure, Atrial Fibrillation, and Coronary Heart Disease: the MESA Study — European Journal of Preventive Cardiology / Oxford University Press, 2025
- 7.Albuminuria and Dipstick Proteinuria for Predicting Mortality in Heart Failure: A Systematic Review and Meta-Analysis — Frontiers in Cardiovascular Medicine / Frontiers, 2021
- 8.Microalbuminuria and its Prognostic Significance in Patients with Acute Heart Failure with Preserved, Mid-Range, and Reduced Ejection Fraction — Arquivos Brasileiros de Cardiologia / Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2022
- 9.Top Things to Know: 2026 Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation, and Management of CKM Syndrome — American Heart Association, em colaboração com ACC, ADA e ASN, 2026


