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Aprenda a identificar grãos integrais e usá-los para apoiar colesterol, glicemia, pressão e peso, sem promessas exageradas.
O que realmente é um grão integral?
Grão integral é aquele que preserva farelo, gérmen e endosperma nas proporções esperadas do grão original, mesmo quando quebrado, moído ou transformado em flocos; no refinamento, farelo e gérmen costumam ser retirados, reduzindo fibras e outros componentes123. Aveia, arroz integral, trigo integral, centeio, cevada, milho integral, sorgo, quinoa, amaranto, trigo-sarraceno e pipoca podem fazer parte desse grupo; no Brasil, quinoa e amaranto são pseudocereais contemplados pela regulamentação13. Feijão, lentilha, ervilha e grão-de-bico são leguminosas, e não cereais integrais, embora continuem sendo fontes importantes de fibras e componentes de uma alimentação cardioprotetora2. Trigo, centeio e cevada contêm glúten, e a aveia pode sofrer contaminação cruzada durante o cultivo ou processamento. Pessoas com doença celíaca, alergia ao trigo ou outra condição relacionada ao glúten precisam evitar os cereais contraindicados e, quando aplicável, escolher produtos certificados sem glúten, com orientação individual.
Como saber se um produto é realmente integral?
No Brasil, a palavra “integral” precisa ser confirmada pelo percentual declarado na embalagem. Pela RDC 712/2022, um alimento à base de cereais só pode receber essa denominação se tiver pelo menos 30% de ingredientes integrais, se a quantidade integral superar a refinada e se o percentual integral estiver informado no rótulo1. Isso significa que um produto legalmente classificado como integral ainda pode conter farinha refinada e outros ingredientes. Para comparar opções, procure maior percentual integral, observe a posição do cereal ou da farinha integral na lista de ingredientes e compare fibras, sódio, açúcares adicionados e gorduras saturadas123. A cor escura não comprova que um pão seja integral, pois também pode vir de malte, melaço ou outros ingredientes3.
Quais benefícios cardiovasculares têm respaldo científico?
O consumo de grãos integrais está associado a menor risco cardiovascular, mas o benefício deve ser interpretado dentro do padrão alimentar completo. Em uma meta-análise de estudos de coorte, um aumento de 90 g por dia foi associado a riscos 19% menor de doença coronariana, 12% menor de AVC, 22% menor de doença cardiovascular e 17% menor de mortalidade por todas as causas4. Essas associações observacionais não garantem que acrescentar determinada quantidade de um alimento evitará infarto ou AVC; no caso do AVC, o intervalo de confiança incluiu a possibilidade de ausência de efeito estatisticamente significativo4. Uma revisão sistemática de ensaios randomizados que compararam grãos integrais e refinados encontrou efeitos modestos e variáveis sobre fatores de risco cardiovascular, com certeza da evidência diferente conforme o desfecho e sem fundamento para prometer benefício clínico individual5. Os possíveis benefícios provavelmente decorrem da combinação de vários efeitos discretos e da substituição de farinhas refinadas, produtos açucarados ou alimentos ricos em gordura saturada6275.
A aveia oferece algum benefício especial para o colesterol?
A aveia contém betaglucana, uma fibra solúvel relacionada à redução do colesterol, mas não deve ser tratada como medicamento. Em uma revisão sistemática, intervenções predominantemente baseadas em aveia produziram reduções médias modestas de LDL e colesterol total em comparação com os grupos de controle, mas a qualidade global da evidência foi considerada baixa8. As intervenções e os produtos estudados variaram e apresentaram limitações metodológicas; por isso, os resultados não devem ser atribuídos automaticamente, na mesma intensidade, a arroz integral, trigo, quinoa ou todos os demais grãos8. Grãos integrais podem complementar o tratamento, mas não substituem medicamentos indicados para colesterol, hipertensão, diabetes ou controle do peso58.
Quanto consumir e como aumentar a ingestão no dia a dia?
Não existe uma quantidade única de grãos integrais adequada para todas as pessoas. A European Society of Cardiology descreve como característica de uma alimentação saudável o consumo de 30 a 45 g de fibras por dia, preferencialmente com participação de grãos integrais7. Como orientação prática de prevenção cardiovascular, a diretriz brasileira recomenda que pelo menos metade dos cereais consumidos seja integral9. As diretrizes brasileiras também orientam priorizar carboidratos ricos em fibras nas dislipidemias e incluem cereais integrais no padrão DASH para pressão arterial106. Como os ensaios avaliaram quantidades, produtos e durações diferentes, seus resultados não definem um alvo universal; peso seco, alimento pronto e número de porções não são medidas equivalentes5. Como referências práticas, uma porção pode corresponder a uma fatia de pão integral, meia xícara de arroz integral, aveia ou massa integral cozidos, ou três xícaras de pipoca preparada sem excesso de sal ou gordura3.
Quais substituições práticas ajudam a proteger o coração?
Começar com uma substituição por dia pode ser uma estratégia prática para fazer mudanças graduais. É possível misturar arroz integral ao branco e aumentar gradualmente sua proporção, acrescentar aveia a frutas ou iogurte, alternar cevada, quinoa, milho e outros cereais, escolher pão e massa pelo percentual integral e preparar pipoca com pouco sal e gordura273. A American Heart Association recomenda priorizar produtos feitos principalmente com grãos integrais no lugar dos refinados, dentro de um padrão com poucos ultraprocessados, açúcares adicionados e sal23. Frutas, verduras, feijões e outras leguminosas devem permanecer no prato, porque a meta de fibras não deve depender exclusivamente dos cereais273. No Setembro — Mês do Coração, com o Dia Mundial do Coração em 29 de setembro, essa troca simples pode ser um ponto de partida prático, sem transformar um único alimento em solução para todos os riscos.
Quando é importante procurar avaliação individual?
A escolha e a quantidade de grãos integrais devem ser individualizadas, especialmente para quem tem doença coronariana, colesterol elevado, hipertensão, diabetes, alterações gastrointestinais, condições relacionadas ao glúten ou objetivos específicos de peso. Em uma avaliação clínica, exames, medicamentos, rotina, preferências culturais e o conjunto da alimentação precisam ser considerados antes da definição de metas de fibras ou substituições. O aumento pode ser gradual, e a melhora da qualidade dos carboidratos não autoriza interromper tratamentos prescritos. Referências numeradas: 1. Précoma DB, Oliveira GMM, Simão AF, et al.; Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia — 2019. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2019;113(4):787-891. DOI: https://doi.org/10.5935/abc.20190204. 2. Faludi AA, Izar MCO, Saraiva JFK, et al.; Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose — 2017. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2017;109(2 Supl. 1):1-76. DOI: https://doi.org/10.5935/abc.20170121. 3. Barroso WKS, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al.; Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial — 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2021;116(3):516-658. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20201238. 4. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada — RDC nº 712, de 1º de julho de 2022: dispõe sobre os requisitos de composição e rotulagem dos alimentos contendo cereais para classificação e identificação como integral e para destaque da presença de ingredientes integrais. Diário Oficial da União. 2022. URL oficial: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2022/rdc0712_01_07_2022.html. Acesso em 8 mar. 2025. 5. Lichtenstein AH, Appel LJ, Vadiveloo M, et al.; American Heart Association. 2021 Dietary Guidance to Improve Cardiovascular Health: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2021;144(23):e472-e487. DOI: https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000001031. 6. Visseren FLJ, Mach F, Smulders YM, et al.; ESC Scientific Document Group. 2021 ESC Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice. European Heart Journal. 2021;42(34):3227-3337. DOI: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehab484. 7. Aune D, Keum N, Giovannucci E, Fadnes LT, Boffetta P, Greenwood DC, Tonstad S, Vatten LJ, Riboli E, Norat T. Whole grain consumption and risk of cardiovascular disease, cancer, and all cause and cause specific mortality: systematic review and dose-response meta-analysis of prospective studies. BMJ. 2016;353:i2716. DOI: https://doi.org/10.1136/bmj.i2716. 8. Marshall S, Petocz P, Duve E, Abbott K, Cassettari T, Blumfield M, Fayet-Moore F. The effect of replacing refined grains with whole grains on cardiovascular risk factors: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials with GRADE clinical recommendation. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2020;120(11):1859-1883.e31. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jand.2020.06.021. 9. Kelly SA, Hartley L, Loveman E, Colquitt JL, Jones HM, Al-Khudairy L, et al. Whole grain cereals for the primary or secondary prevention of cardiovascular disease. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2017;8(8):CD005051. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD005051.pub3. 10. American Heart Association. Whole Grains, Refined Grains, and Dietary Fiber. American Heart Association. 2024. URL oficial: https://www.heart.org/en/healthy-living/healthy-eating/eat-smart/nutrition-basics/whole-grains-refined-grains-and-dietary-fiber. Acesso em 8 mar. 2025. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica individual.
Fontes
- 1.Já está em vigor norma que classifica alimentos à base de cereais como integrais — Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa, 2023
- 2.2021 Dietary Guidance to Improve Cardiovascular Health: A Scientific Statement From the American Heart Association — American Heart Association / Circulation, 2021
- 3.Get to Know Grains: Why You Need Them, and What to Look For — American Heart Association, 2024
- 4.Consumption of whole grains and refined grains and associated risk of cardiovascular disease events and all-cause mortality: a systematic review and dose-response meta-analysis of prospective cohort studies — The American Journal of Clinical Nutrition, 2023
- 5.Whole-grain consumption and cardiometabolic risk: a meta-analysis of randomized trials — Oxford University Press, em nome da European Society of Cardiology / European Heart Journal, 2026
- 6.Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 — Sociedade Brasileira de Cardiologia / Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025
- 7.2021 ESC Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice — European Society of Cardiology / European Heart Journal, 2021
- 8.Efficacy of oats in dyslipidemia: a systematic review and meta-analysis — Royal Society of Chemistry / Food & Function, 2024
- 9.Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025 — Sociedade Brasileira de Cardiologia / Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025
- 10.Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 — Sociedade Brasileira de Cardiologia / Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025


